A alfabetização é só uma questão de método?
Sobre a briga entre os fônicos e os construtivistas
                                             Por Aloma F. Carvalho

Método fônico, método global, construtivismo, alfabetizar com cartilha, com textos reais... Ufa! Todos os educadores que se dedicam à questão da alfabetização já ouviram falar da mais nova “briga” dos teóricos e de alguns dirigentes políticos que pegam carona nessa discussão para definir novas políticas para a educação...

Como professora-alfabetizadora, fico um pouco espantada com tudo isso. Parece que as pessoas deixaram de lado o bom-senso só para fincar o pé e esperar que o seu ponto de vista prevaleça sobre os demais... Como se houvesse uma solução mágica que alfabetizará todos os meninos e meninas de nosso país.

Para quem está na sala de aula, faço um convite: vamos ouvir o bom-senso... E o que ele nos diz?

Em primeiro lugar, ele diz que sim, é preciso desenvolver atividades pontuais que auxiliem os alunos a se apropriarem dos aspectos formais e das convenções do sistema alfabético. O nome das letras? Sim. O desenho das letras? Sim. E mais: a análise da relação entre as letras e os sons que elas representam? Sim, é claro. As crianças também precisam aprender a se questionar sobre essa relação. Para algumas delas, é algo tão natural como um bebê que começa a falar e experimenta os sons (AUA, AGUA, lembram?)... Mas, para outras, essa relação não é tão natural. Muitas nem percebem que isso pode ser questionado. O que muda quando falamos ARANHA ou ARRANHA? E na hora de escrever, será que algo também muda? É preciso ensinar essa reflexão, como um procedimento e um valor a ser construído durante o processo de alfabetização.

Por outro lado, o bom-senso também nos lembra: aprender a ler e escrever ganha novos sentidos quando a criança tem textos em mãos e pode deles usufruir – principalmente aquela criança que tem pouco ou nenhum contato com livros, revistas, jornais etc. É como aprender a andar de bicicleta e logo dar uma volta na praça. É como aprender a cozinhar e logo preparar um bolo gostoso... A aprendizagem e a sensação de competência para poder fazer andam juntas – uma não vem depois da outra.

Se você concorda com o que venho expondo até o momento, aqui vai mais uma: o bom-senso é implacável e nos lembra que o tempo em sala de aula é limitado e a aprendizagem pede urgência. Logo, não dá para gastar todo o tempo de sala de aula com atividades pontuais sobre o sistema alfabético. Também não dá só para ficar lendo ou escrevendo. É preciso certo equilíbrio. É preciso ter a certeza de que esse equilíbrio é suficiente. É preciso saber que às vezes é necessário mais: um ou outro aluno pode precisar de uma “ajudinha” extra.

Eis a dificuldade e a sabedoria do professor em sala de aula: decidir o que e quando fazer para ajudar seus alunos a aprenderem. E não me venham com métodos prontos, livros infalíveis...


Quer mais informações?

Para prosseguir refletindo sobre a “briga” entre fônicos e construtivistas, acompanhe a opinião de gente da área e também de gente que não é da área mas se preocupa com o assunto.

  • Alfabetização - Todos podem aprender
  • Artigo publicado na revista "Nova Escola" do mês de março de 2006, com depoimento de professores e uma breve entrevista com Telma Weisz, pesquisadora responsável pelo Programa de Formação de Professores Alfabetizadores do MEC.
    http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0190/aberto/mt_120479.shtml

  • Alfabetização, letramento e construção de unidades lingüísticas
  • Palestra ministrada pela pesquisadora Emília Ferreiro no Seminário Internacional de Leitura e EscritaLetra e Vida Promovido pela Secretaria Estadual de Educação Estado de São Paulo, em março de

  • Artigo: "A querela da cartilha"
  • Artigo publicado pelo filósofo e jornalista Hélio Schwartman no no site Folha Online em 20 de abril de 2006.

  • Artigo: "Sobre o vovô viu a uva”
  • Artigo publicado pelo professor Sergio Antônio da Silva Leite da faculdade de Educação da Unicamp e membro do grupo de pesquisa Alle (Alfabetização, Leitura e Escrita) no jornal "Folha de S.Paulo" em 17 de março de 2006.

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